| Carlos André

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Um maranhense, chamado Ribamar, falou-me, em 2015, na Academia Brasileira de Letras, sobre o procedimento que eleva o homem à transcendência espiritual; que faz do ser humano um cristo, mais evoluído, portanto; que gera a expiação rumo à fraternidade universal; que nos faz mais alterosos e, de certo, mais piedosos.

E olha que esse tal Ribamar, como muitos "Ribamares do Maranhão'', teve um "vida severina": foi perseguido, torturado, e teve os direitos cassados pela ditadura militar!

Infelizmente, confesso, no entanto, que ainda não sou como o Ribamar. Não cheguei ao nível de evolução espiritual; à paz; à dimensão de urbanidade que faz de Ribamar um paladino da civilidade.

Depois de uma semana recluso, em razão da COVID, dediquei-me a estudar e a refletir um pouco mais sobre o exercício da democracia, sobre a liberdade de expressão e sobre o futuro (se é que há) da "humanidade".

Pois bem! Em um dos intervalos de estudo, fui ao meu Instagram e vi a seguinte notícia:

Padres sofrem racismo de fiéis no Brasil por serem negros

O pior é que eu tive a súbita e irrefreável aspiração de ler os lamentáveis comentários no post. Os comentários, muitos (ou quase todos) estapafúrdios e racistas, traduziam - em grande maioria - a hodierna materialização do direito à estupidez humana, nas redes sociais.

Aliás, vamos celebrá-la! "Vamos celebrar a estupidez humana", como fez o Russo! É claro que falo do Renato (e não do Vladimir da KGB)!

Bem! Quem conhece o grande Ribamar (caso não conheça, conhecerá até o final deste texto) sabe que eu preciso apresentar, depois da notícia e dos comentários no post, as duas partes de mim, em uma celebração do meu manifesto contra a estupidez humana.

Uma parte de mim é ser humano não evoluído, que sente nojo, asco, repulsa desses imbecis que, deveras, são prejudiciais à raça humana. Acreditem, sinto o mesmo nojo, o mesmo asco, a mesma repulsa que o leitor sente quando descobre que G.H., de Clarice Lispector, come uma barata, logo depois de o animal expelir a secreção branca típica, e, depois, de perceber que eles se fundem em um silêncio sepulcral.

Outra parte de mim é jurista e ligada aos direitos humanos, descendente de Sobral Pinto e Mandela, cuja lógica é a de democratização até da imbecilidade e da inescrupulosa falta de caráter do ser humano. Essa parte tem uma harmonia indissociável com o artigo 5º, IV, da Carta Magna Brasileira, que protege o quase imponderável direito à manifestação de pensamento.

Uma parte de mim se indigna, porque sabe que esses racistas têm um nível de percepção de mundo que catalisa o idiotismo e a desagregação entre os povos; porque sabe que eles são a razão de ser do desajuste social da maioria das nações no mundo; porque sabe que eles nunca leram Lilia Moritz Schwarcz, Boris Fasto, José Murilo de Carvalho, ou seja, que não conhecem a importância da raça negra para a construção das "Terras Verde-Amarelas"; que não têm a sensibilidade de reconhecer que negros como o Sr. Josino Pereira, meu avô, descendente de escravos como eu, foi capaz, sem auxílio do Estado, de dar cidadania plena a 15 filhos, mesmo em um mundo cheio de "ervas daninhas" do fascismo contra negros.

Outra parte de mim acredita no Direito e no iluminismo, molas propulsoras do Moderno Estado Democrático de Direito; tenta, por meio de conceitos de Direito Público e de Antropologia, educar as pessoas sob a égide da ética pregada por Michael Sandel, Jean Jacques Rousseau e Michel Foucault; faz apologia aos novos valores de Justiça Canônica pregadas pelo "Chico Argentino", o qual, com o seu poder de "justiça justa" professa aos juristas a novel hermenêutica das ações e não das palavras; questiona a diferença da pena daquele que pratica injúria racial em relação àquele que pratica racismo, por entender que a pena pelo cometimento de injúria racial é muito leve e, consequentemente, incentivadora da prática de crime tão abjeto.

Uma parte de mim acredita em Bauman e Lipovestky e, portanto, supõe que, na modernidade líquida em que vivemos, o aquoso ser humano não tem paradigmas, não ser a sua frágil e corrompida não consciência de servir ao outro. Assim, acredita que a problemática do racismo torna-se resultado não somente da imbecilidade, mas também, da ausência de ser do ser.

Outra parte entende que, com um processo educacional eficaz, que privilegie a meritocracia e polidez no trato humano, o Direito volte a reinar sobre o solo terrestre e, por conseguinte, as relações humanas passem a ter civilidade, que é a base do constitucionalismo moderno.

Traduzir uma parte em outra parte é uma questão de vida ou morte.

Nós, brasileiros, precisamos traduzir o mesmo sentimento de indignação que os ingleses tiveram quando souberam que negros escravos eram jogados covardemente ao mar para que os navios não afundassem, o que resultou na dura proibição da escravatura na "Ilha da Rainha" ; e, ao mesmo tempo, precisamos ter o sentimento de piedade e de tolerância que 'Mandiba' teve na África do Sul.

Afinal, você, como eu, precisa traduzir as partes de você, não é?!

Ah! para não ser mal-educado com você, Ribamar rima com Gullar, viu?!

Avante!


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