| Carlos André

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Caro leitor (ou leiteiro),

Hoje é o dia nacional do LeitOR, data que - por óbvio - só existe por causa de você, por causa de indivíduos-paradigma, que entendem que a conquista à "homossapiência" e ao desenvolvimento espiritual passam , necessariamente, pela LEITURA, pela “sophia”, pela informação.

Atrevo-me,"legiferantemente”, até a propor a substituição (somente hoje) da palavra leitOR por leitEIRO.

Acalme-se, já explico: o sufixo “-eiro” possui ideia de “aquele que exerce um ofício com penhor, com compromisso”, diferentemente do que é apresentado pelo sufixo “- or”, que indica “aquele que exerce um ofício, não necessariamente, com diligência, com compromisso". Daí, por exemplo, o porquê de “trabalhador” ser aquele que trabalha, mas de “trabalhadeiro” ser aquele que trabalha com afinco, com compromisso. É óbvio, no entanto, que - por questões linguísticas, principalmente ligadas ao uso efetivo de linguagem -, esses valores de sufixos e prefixos são alterados e perdem, quase sempre, no português moderno, o sentido etimológico.

Bem, deixo, porém, essas considerações linguísticas de lado, caro leitEIRO/leitOR, para lhe dizer de minha sempre resignação frente à lembrança da notícia de que, há 6 anos, a então ministra da Igualdade Racial, professora Nilma Lino Gomes - por quem tenho grande respeito e admiração, em razão do extraordinário trabalho intelectual que desempenha em pesquisas sociológicas, ligadas à África e à afrodescendência - encabeçava o movimento para a proibição do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, com a alegação de que a obra possui conteúdo racista, em razão de passagens como "Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens". Outro é: “Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta”.

Ora, sou negro e leitEIRO (leio mais de 5 obras por mês, além de leituras consideradas técnicas à minha profissão), e sei o quanto nós, "afrodescendentes" (palavra que advém de conceito ético ligado ao 'politicamente correto') sofremos em um país que – lamentavelmente - ainda não se livrou das amarras anticivilizatórias do preconceito racial; que não possui qualquer universidade entre as melhores do mundo; que não indica, no currículo do ensino médio, obras como " Raízes do Brasil", "Casa Grande e Senzala" e "O Povo Brasileiro", cuja leitura seria absolutamente indispensável para a construção da cidadania; que ainda acredita que politização é - necessariamente - seguir doutrinas maniqueístas " gramchianas" ou "lockeanas".

Mesmo assim, com tudo isso, com todas as dificuldades por que nós, que adviemos de famílias consideradas pobres (o que, para mim, é um conceito meramente capitalista. Infelizmente, no Brasil, ninguém é considerado rico por possuir cultura) passamos, entendo que o veto a livros trata-se de um equívoco tão grave quanto o que cometeu a Igreja, quando incinerou livros na Idade Média; como o que fizeram os nazistas na Segunda Guerra Mundial, ao impedir, também, por meio de queima de livros, os judeus de terem acesso à cultura judaica.

Ora, leiamos "Terra Sonâmbula" e percebamos as agruras por que passaram (e passam) nossos irmãos moçambicanos; leiamos "Tribunos, profetas e sacerdotes" e percebamos a necessidade dos intelectuais (independentemente da corrente ideológica) no mundo; leiamos "Crime e Castigo" e percebamos a visão de ética e religiosa em Dostoiévski; leiamos "A cultura no mundo líquido moderno" e percebamos a visão de Bauman sobre hipermodernidade e cultura"; leiamos "O Capital", de Tomas Piketty, mesmo que acreditemos no neoliberalimo e tenhamos valores pragmáticos de economia"; leiamos, sim, "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, para que tenhamos o direito inalienável à critica, que é o que nos faz humanos, conscientes de nossa humanidade, que só pode existir com liberdade! Leiamos até “papel de pão”!

Aqui vai, então, por meio de uma paráfrase a Manuel Bandeira, um conselho de um leitEIRO:

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro, pois a madrugada ainda se nos apresentava.

Passava.

Passava "Invictus", filme de Clint Eastwood, como contraste à minha vontade de me levantar e de estudar.

Porém, não me levantei; Assisti a uma das maiores obras-primas da sociologia, a uma tradução "hobbesiana" de Contrato Social, e "weberiana" de Nação.

Depois pensei; ensimesmadamente, pensei no quanto a Pátria Educadora e o futebol poderiam aprender com Mandiba e com o rugby, sobre como construir um VERDADEIRO sentimento nacional.

Avante, leitEIROS!

#avante #carlosandre


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