| Carlos André

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“Nenhum povo passa incólume por ter sido o último a abolir a escravidão nas Américas”, vaticina a historiadora e professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Lília Moritz Schwarcz.

Na obra Brasil uma biografia, a antropóloga descreve a percepção psicossocial do povo acerca do mulato inzoneiro, de Ari Barroso, porém com a desrealização do romantismo típico do ufanismo de um projeto de construção de nação plural e antirracista. “O que vivemos no País é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Não somos vítimas do passado. O que temos feito nesses pouco mais de 130 de abolição da escravatura é apenas dar continuidade, mas intensificar o racismo estrutural”, ratifica Schwarcz.

A memória de um povo é seu diário de consciência coletiva ou mesmo sua subconsciência psicanalítico-social guardada a sete chaves pelo mito do homem cordial, (re)ssignificado frugalmente (para não dizer maquiavelicamente) por um povo que se orgulha por não ter tido muitas guerras civis e que ostenta viver em uma utopia de terra sem desastres naturais frequentes, na terra boa e gostosa, da morena sestrosa (...) para o mundo admirar.

Acontece que a historiografia da linguagem não permite romantizar o inegável: “O Brasil vai sair da barbárie para a decadência sem conhecer a civilização”. A nossa salvação não é, portanto, a história (ou porque não dizer a estória), esse somatório de ressignificações tendenciosas. Nossa salvação é a historiografia da linguagem literária e a historiografia da percepção humanista.

Nossa historiografia da linguagem literária mostra-nos claramente que nossa cordialidade não é representada pela lógica altera nas relações sociais. Desde Castro Alves, na saga da (des)territorialização, passando pelo triste fim do ideal (res)publicano de Lima Barreto, até a pós-moderna mulata exportação de Elisa Lucinda, a literatura sugere ao povo brasileiro a percepção de que a Casa Grande e a Senzala não foi (des)realizada, mas sim, (re)incorporada sob ferramentas de políticas estatais que permitem com que a morena continue sestrosa e objeto-desejo do chamado mundo civilizado ocidental. Nossa ideologia pseudocordial é tamanha que, no marco de nossa independência cultural, a Semana de Arte Moderna, o ataque abapurítico à nossa lusitanidade foi dirigir-se a Machado de Assis como “(...) o Mulato sabido (...)”, aquele que arrefeceu a nossa nacionalidade “(...) a do bom branco e a do bom negro da Nação Brasileira.”

Já a nossa historiografia da percepção humanista é aquela que não nos permite cerrar os olhos cansados e tristonhos (conquanto esperançosos) para a triste realidade que se nos apresenta. O Brasil é a nação que possui a maior população negra fora da África, porém é a que possui a maior população negra encarcerada do mundo. O Brasil possui a maioria absoluta de seu povo negro, porém a renda da população branca é duas vezes maior. O Brasil prega a paz social, porém mata seus jovens negros como forma de higienização social, como podres, cujo valor é mitigado a menos que o do saco de lixo brilhante do Leblon, nas palavras do poeta Caetano Veloso.

Não há como negar! Aliás, não há avançar! É preciso que os organismos internacionais de Direitos Humanos tenham um olhar sensível (o mesmo da historiografia literária) e humano (o mesmo da percepção humanista), sob pena de a barbárie velada brasileira ser exemplo malfado de genocídio, ocultado pelo silêncio sorridente das instituições democráticas do País.

É preciso que a Organização das Nações Unidas dialogue com o Governo Brasileiro e auxilie-o à promoção de políticas públicas que combatam a cultura do racismo, que não é um problema do Brasil, mas que é um problema (de/da) humanidade.


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